Hobbie ou profissão?
Certa vez, eu ouvi de uma consultora do Sebrae que o Memória de Bolso era um hobbie. Isso mesmo depois deu ter explicado toda a sorte de fases do projeto, incluindo as feiras que fiz vendendo produtos originais, estampados com a minha arte etc e tal. Fico achando que ela parou de ouvir depois que eu disse que ganhava a vida desenhando. Afinal, como isso seria possível?!
Depois de um sorriso amarelo e a reunião mais constrangedora da minha vida, entendi que nem todo mundo entende o que eu faço, e que eu precisarei ser didática, paciente e melhorar a minha oratória. Não só isso, entendi que alguns outros percalços conceituais como esse, tinham me levado a me questionar por muito tempo o quão ambiciosa eu poderia ser sem abrir mão da minha maior paixão, que é o desenho. Eu precisava parar de acreditar em quem não acreditava em mim!
Eu sou super criativa, ótima em solucionar problemas e inventiva o suficiente para ter uma infinidade de projetos paralelos. Infelizmente não aprendi como transformar isso em um NEGÓCIO criativo. E foi exatamente essa ajuda que eu buscava quando me inscrevi no evento do Sebrae.
Felizmente, na minha incessante busca por respostas, fui ano passado num evento sobre Soft Power na Casa Firjan.
Soft power é o poder de influência que um país, uma cultura, uma empresa ou uma pessoa exerce sobre os outros por meio da imagem, do prestígio e da confiança, sem recorrer à força. Diferente do hard power, que impõe, o soft power atrai, inspira e convence. (Me parece muito mais genuíno e honesto. Meu tipo de poder.)
Lá eu confirmei a minha capacidade de empreendedorismo, de bolar soluções alternativas, com as ferramentas disponíveis; de pensar em inovações, caminhos fora do comum; de ter resiliência e determinação. O que me falta é a visão prática do negócio e de como ganhar efetivamente dinheiro com isso. Sendo assim, eu tenho que dar crédito à mentora do workshop. Errada ela não estava.

Desenhar é o meu ofício, não é um hobbie. A questão é que o meu ofício se relaciona com um universo lúdico, que é facilmente massacrado pela realidade do mundo. (Não queria me precipitar em culpar o capitalismo, mas não há muita saída.)
Afinal, uma criança de 2 anos de idade também desenha... Sinto que há uma infantilização e um preconceito com esta habilidade de certa maneira, por certas pessoas.
Até meus 16 anos, desenhar era um hobbie sim (e eu desenhava bem mal por isso). Num hobbie, não há cobrança. Sua única função é distrair, ocupar o tempo, te alegrar. A partir do momento que eu soube que poderia escolher uma profissão que se relacionasse com a habilidade que eu mais amava, não houve muita alternativa. Escolhi Comunicação Visual, porque no mundo não há nada que eu ache mais interessante, fundamental e útil do que aprender a usar uma linguagem através de imagens.
Como comentei no último post, o Memória de Bolso nasceu durante a faculdade, depois das primeiras aulas de desenho de observação e modelo vivo. Por influência de professores, de um ex-namorado e amigos que tinham a mesma paixão que eu, comecei a colecionar caderninhos de desenho. Sempre tinha um na bolsa. Aprendi a encadernar, o que me deu autonomia de formatos, papéis e volume de produção. Aprimorei meu desenho desenhando.
Me surpreende muito quando ouço alguém dizer que não sabe desenhar. Todo mundo sabe. Basta querer. Você só precisa conectar seu cérebro à sua mão para criar imagens, da mesma forma que escreve palavras.
Ninguém nasce sabendo escrever, mas nascemos sabendo desenhar, ou melhor, encontramos no desenho uma alternativa para nos expressarmos. É uma pena que em dado momento da vida uma escolha seja feita, e trocamos a forma como nos comunicamos com o mundo. De um momento para o outro abandonamos os lápis de cor e corremos para desenhar letras em grafite (nada contra as letras. Inclusive tenho amigos que são adeptos. Boa gente).
Para mim “não saber desenhar” é uma escolha. E eu escolhi continuar desenhando. Não saber desenhar é só falta de prática, falta de confiança ou desejo (e está tudo bem). Afinal, o desenho exige da gente, porque muitas vezes ele só se faz compreensível pelo esforço de ser lido através do repertório ou da abstração.
Para se “desenhar de verdade” é preciso dominar a percepção do que te rodeia. E essa habilidade eu aprendi nos meus cadernos. Não basta a coordenação motora de delinear traços no papel. É preciso uma intenção no jeito que se desenha e na escolha do que desenhar.
É preciso observação, atenção, imersão, foco, sensibilidade e paciência. Paciência para se demorar no papel o quanto for necessário para formar uma imagem por completo (ou não. Desistir também é uma escolha).
No desenho o tempo se estende. Desenhar é o completo oposto de fotografar. É preciso se demorar na imagem. Enquanto na fotografia o tempo é estático e o momento é real, no desenho de observação desenhamos O TEMPO: montamos uma composição de momentos, ângulos e poses diversos. No desenho imagético, sonhamos. Na ilustração, nos comunicamos criando mensagens visuais através de signos, símbolos, cores previamente conhecidos, mas que não necessariamente habitam o mesmo universo. As possibilidades são infinitas e isso é divertido demais!
ILUSTRAR (um texto, por exemplo) é sobre dar forma visual a conceitos escritos, preferencialmente de forma complementar e não literal. Para isso, é preciso abrir-se ao mundo. Abrir-se às possibilidades de mídias, ângulos, símbolos, referências, cenários. Inclusive à possibilidade de criar um livro sem texto algum. Construir repertório visual é importante para se comunicar silenciosamente. É preciso o máximo do domínio do olhar, mais que das formas para se retratar a delicadeza das coisas mínimas. E para isso só a prática.
O Memória de Bolso não é um hobbie, ele é uma prática, um estudo, uma coleção, um laboratório de experimentação pessoal, um desenvolvimento pessoal e estratégico para transformar ideias criativas em projetos, histórias e lembrança. O dinheiro vem depois.
Para David, que me ensinou tanto 💖
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