Cansei de ser low-profile!

Meu artista favorito morreu acreditando que era um fracasso. Ele tinha um potencial criativo absurdo, acreditava no amor que tinha pelo seu fazer artístico, era inovador, destemido e muito a frente do seu tempo. Ele viveu intensamente essa paixão, mas o mundo só conheceu de fato a sua genialidade quando alguém, depois que ele se foi, decidiu contar a sua história.

Sabe-se há pouco tempo que toda a honra e glória que sentimos em relação ao trabalho de Van Gogh se deve à iniciativa e dedicação de sua cunhada, Johanna van Gogh-Bonger, em convencer críticos e representantes das artes da época de que a pintura de Vincent era relevante e apaixonante o suficiente para ser apreciada (e principalmente comprada!). Naquele tempo, suas pinceladas eram densas, a paleta e os temas de seus quadros diferente demais e assustavam os menos visionários. Foi só a partir da leitura das cartas que escreveu ao seu irmão, que passaram a entender a EMOÇÃO e a VISÃO por trás de cada um dos seus quadros. Foi só então que as pessoas se CONVENCERAM da relevância das suas obras. Jo dedicou sua vida a esse objetivo. [mais uma vez uma mulher salvando o mundo!]

Cartas a Théo nem é um livro super longo, mas lembro que demorei bastante tempo pra terminar. Foi muito sofrido acompanhar suas angústias e ao mesmo tempo lindo ler sobre a sensação da criação. Ele era um gênio – eu sei –, mas como artista, não pude evitar de me identificar intensamente com tudo o que ele descreveu. E, confesso, sempre me deu muito medo de que o fracasso também fosse o meu futuro.

Quem diria que 11 anos depois da minha última postagem no blogspot, eu iria voltar a postar textos na internet? Provavelmente você que me lê agora em 2026 não acompanhou, mas o Memória de Bolso nasceu como blog e confesso que tenho saudades. Eram tempos mais simples…

Fato é que eu nunca escrevi carta pra ninguém e sei que os prints das minhas mensagens do whatsapp desabafando com meus amigos não vão me trazer fama após a morte. Tem tempo que penso sobre desenvolver uma voz mais ativa na comunidade do design e artes gráficas e acho que esse momento chegou. Bem ou mal, sei bem que isso também faz muita diferença no reconhecimento de um profissional hoje em dia. Tudo isso me leva ao fato de que vou ter que virar blogueira. [pânico]

O Memória de Bolso (meu projeto de pesquisa visual) começou como diário ilustrado durante a faculdade e virou marca de produtos físicos (adesivos, prints e até roupa!) em 2015. Retomo nesta carta o 3º ato desse projeto pessoal, agora como espaço de reflexão e produção artística.



Por fora posso parecer serena e calma – e de fato me considero uma pessoa introspectiva e quieta –, mas por dentro há sempre uma pequena revolução acontecendo.

Acho que voltar a ter uma newsletter vai me ajudar a colocar pra fora esses conflitos internos. Exteriorizar esse turbilhão, vai me ajudar a sair da inércia. Vou compartilhar aqui e nas redes sociais as referências que me são caras e os insights que me levaram a cada ideia, enquanto tiro do papel alguns projetos e documento melhor o meu processo criativo.

A verdade é que cansei de ser discreta! Cansei de me esconder e controlar meus passos por não me achar boa o suficiente, por achar que perdi o timing ou por me comparar demais com os outros. Cansei de ficar no meu canto, vendo as coisas acontecerem de longe, sonhando com oportunidades que não vão cair do céu. Pensando e passando tempo demais nas redes sociais. Vejo e salvo tanta coisa, que às vezes me sinto sufocada pelo meu próprio silêncio.



Vincent morreu aos 37 anos. Eu tenho 38. Na numerologia, 2026 é ano 1 e no calendário chinês é ano do cavalo de fogo. Ou seja, esse é O ANO de partir para a ação e focar todas as energias em comunicar a paixão e emoção que sinto ao criar, para que meu trabalho alcance lugares que eu nem sei quais são.

Eu tenho plena consciência de toda a sorte de oportunidades que tive até aqui e sei que realizei muita coisa boa e interessante. Mas confesso que quero mais! Não quero ficar à espera do próximo projeto remunerado e encher minha agenda com reuniões para realizar projetos de terceiros. Quero explorar o meu trabalho autoral com mais profundidade, criar o meu universo próprio, sem me limitar ao que esperam de mim.

Apesar de ser tímida e reservada, eu me motivo em movimento. E quietinha no meu canto, eu nunca vou chegar onde eu quero. O que eu podia entender como proteção, é só o meu potencial criativo sendo sufocado pelo medo. Então eu to indo com medo mesmo.


Sou apaixonada por arte e ilustração, acredito no design como ferramenta estratégica de pensamento e comunicação. Espero nessa nova fase, desmistificar a crença de que criatividade é um dom e que ilustração se relaciona apenas com o universo infantil. Nada disso é verdade. Quero que as pessoas entendam a comunicação visual como algo a ser estudado, debatido, observado, apreciado, entendam e respeitem o processo por trás da construção de cada imagem. Em tempos de memes, a comunicação é efêmera e as mensagens vazias. Quero contribuir para que essa realidade mude de alguma forma. Farei isso mergulhando nas minhas criações, numa constante evolução da minha arte.

Acho que o tempo (e todos os livros que li) me trouxe(ram) a noção de que a diferença entre um artista desconhecido e um artista celebrado não é só o talento, é a coragem de revelar o processo e se permitir viver e ser visto em estado criativo.

Aqui cabe um questionamento importante: será que Van Gogh teria coragem de virar tiktoker?!




Dicas e refs:

Eu não poderia deixar de recomendar a leitura de Cartas a Théo.
Eu li uma versão de bolso, lançada pela L&PM em 2015.

E achei o artigo publicado na Piauí, sobre a história da saga da Johanna van Gogh-Bonger em tornar Van Gogh conhecido, fascinante!

Johanna por Vincent ❤️

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