Mil abas abertas
Querido diário, talvez eu seja a pior blogueira do mundo. Guardo tudo pra mim.
Muita coisa aconteceu nas últimas semanas, mas eu simplesmente não consegui publicar nada. Ao mesmo tempo que planejo melhorar nisso, penso muito sobre o que dividir e o que guardar. Acho que as pessoas perderam essa noção, e não quero ser uma delas.
Sumi, e nesse meio tempo bastante coisa aconteceu: fui pra São Paulo para participar de um evento do FILEX, fiquei lá por 1 semana, passei frio, encontrei amigos queridos, trabalhei, voltei pro inverno de 30º do Rio, meu gato não pára de miar, prospecto enquanto faço 6 freelas, planejo edital, é obra no vizinho, é bebê que nasce, é carregador do computador que para de funcionar e depois volta (quando o cabo novo chegou, claro), plantei finalmente a bougainville que minha tia me deu (achei que tivesse matado a pobre coitada, mas continua viva!), rotina de exercícios quase em dia, exame de vista, expectativas pra Flip, Copa, Quadrados… Haja saúde mental pra não surtar e eu ainda invento de ser blogueira?!
Considerei tudo um monte de bastidor: coisas rotineiras, pequenas crises, tudo à altura de ser levado à roda de amigos para momentos filosóficos e uma leve terapia em grupo, e não dividido pela metade na internet.
Desde que defini que criaria conteúdos, centenas de vídeos ensinando a fazer vídeos pra internet apareceram pra mim. A minha timeline virou SÓ ISSO, na real. Gente que ganhou 20 mil seguidores em 2 meses fazendo reel de teste (sendo que os meus só tiverem 10 visualizações risos), gente vendendo curso ensinando a ganhar mil seguidores por vídeo, gente que ganhou um milhão de reais vendendo aula de como falar pra câmera. Bom, parabéns pra vocês. Promessas milagrosas e coach de curso me fizeram me afastar totalmente das redes e me sentir um fracasso. Acho que o papel deles é esse mesmo. Achei tudo uma chatice e fugi. Prefiro ver vídeos fofinhos de gato, interagir com o meu ou ver um filme (vocês já viram Devoradores de Estrelas? 😍).
Antes de desaparecer, caí em uma dessas armadilhas e comprei acesso a um curso que prometia mundos e fundos. Nele, descobri que eu já sei o que eu estou fazendo. Pra piorar, ele oferece um diferencial: uma Inteligência Artificial para encaixar o seu temas em formatos específicos, ditos “virais”.
Só EU não acho maneiro gerar roteiros com prompt?! Eles ficam uma merda! Todo mundo desaprendeu a pensar e escrever?! É isso? Supostamente “à prova de algoritmo”, os dito vídeos virais performam bem, porque copiam o que já deu certo. O robô do Instagram está viciado. Ele vai entregar para mais pessoas o vídeo que o outro robô fez, porque usa todas as palavras chave que ele já aprendeu e já é familiar. Nossa, que novidade! Esses vídeos são entregues para um grupo que interage bem, rendem bons números, o que anima a galera a produzir mais conteúdos robotizados. Poxa, que legal… tudo o que o mundo precisa. Mais vídeos iguais.
Eu GOSTO de pensar. Eu GOSTO de passar tempo elaborando a melhor forma de comunicar algo do meu jeito. E quero fazer coisas DIFERENTES. E eu não faço questão do vídeo viralizar. Eu quero passar uma mensagem, transmitir da melhor forma possível o que me encanta, o que eu faço, o que eu pensei. É preciso aceitar que isso leva tempo e pode ser que o robô do algoritmo do Instagram não goste de mim, mas EU preciso saber o meu valor.
Eu adoro o perfil da Raíza Costa, por exemplo. Ela compartilha os assuntos menos importantes e o dia a dia nos Stories. Tem longas conversas sobre assuntos específicos do interesse DELA, educando a audiência com isso, e performa super bem. No feed, só vídeo lindo, perfeito, com início, meio e fim, todos super aesthetic. “Perrengues” têm cenários perfeitos, porque a casa dela é lindíssima. A comida improvisada com o resto da geladeira inclui camarão. Ela é rica por conta do trabalho dela e não por causa de BET. Ela sabe demais o que está fazendo, porque trabalha com isso há anos. Sigo só pra passar raiva! MENTIRA, eu amo ela.
Outra que está seguindo um ritmo próprio e não está nem aí pros formatos padrão é a Paola (Carossella) no Youtube. Na primeira temporada da série “Como comer um livro”, ela fez vídeos longuíssimos, como o de 40 minutos ensinando uma receita de sopa de cebola. O objetivo dela não é só que as pessoas façam uma sopa de cebola. Ela ensina muito mais do que isso. Ela tem uma missão.
Acho muito distópico e ainda devo demorar um pouco a me acostumar a falar sozinha para um telefone. Quando isso acontecer, saiba que é sincero (senão eu não postarei) e que foi uma vitória. Só preciso lembrar de me não me comparar com quem já é super conhecido e tem uma estrutura de produção de conteúdo.
Decidi não ir para a Flip esse ano 🥲
Muito trabalho, pouco dinheiro e me pareceu mais delusional que das outras vezes me presentear com essa viagem. Apesar disso, achei importante me fazer presente lá de alguma forma e preparei algumas coisas. Fiz caderninhos e marca páginas ilustrados lindos, que estão à venda na Gambiarra Livros na Casa da Estante Virtual (obrigada, Betânia!) 🙃.
Cheguei a gravar um pouco do processo, o que me fez interromper o raciocínio por diversas vezes… Você já trabalhou com alguém pendurado no seu pescoço enquanto você pensa, vendo e comentando em tempo real sobre o que você está fazendo? Eu já, e não é nada legal. Bateu uma nóia. Não quero criar assim.
Acho que com o tempo vou saber quando puxar o celular pra filmar o processo, e levar menos a sério esses vídeos. Por enquanto, isso só me atrapalhou.
Ou eu elaboro uma coisa, ou eu me gravo fingindo que estou elaborando qualquer coisa. Me faltou aula de teatro.
Ou eu vivo ou eu posto que estou vivendo. E sempre vou preferir viver.
Editei por semanas essa newsletter sobre nada, porque não consegui adiantar os assuntos que queria falar antes de julho chegar. Eu sabia que o mês seria intenso de trabalho e meu dia continua tendo 24 horas. Não cabe nada além do que já acontece nele e, na real, sempre falta tempo pra fazer tudo o que preciso. Tenho que abrir espaço para essa nova persona.
Obrigada por continuarem por aqui! Voltei.


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